Opinião: Uma década de palavras subindo a ladeira do Pelô
Por Iumara Rodrigues* – 14/08/26
Os últimos dias foram de festa literária no Centro Histórico de Salvador. A 10ª edição da Flipelô reuniu uma multidão entre 5 e 9 de agosto. Palavras invadiram ruas, ladeiras, praças e becos do Pelourinho. Exposições, lançamentos de livros, debates, oficinas, gastronomia, música, moda e experiências que só quem é leitor raiz sabe dimensionar. E o melhor: a programação é gratuita e contempla todas as idades.
Trabalho com palavras há quase 30 anos e ver tanta gente interessada em livros, em escritores e em escritoras aquece meu coração de leitora voraz. Iniciei o segundo dia com a poesia de Bráulio Bessa; participei de uma oficina excelente sobre audiodescrição, ministrada por Allan Gandarela; vi Leonencio Nossa, biógrafo de Guimarães Rosa. Na sequência, a primeira mulher negra na Academia Brasileira de Letras, Ana Maria Gonçalves, autora de “Um defeito de cor”, brindou o público com uma conversa acerca de ancestralidade. Programação encerrada com show de Chico Chico no Largo do Pelourinho. É sensacional que chama, né? No terceiro dia, sexta-feira, acompanhei um bate-papo sobre memórias da cidade com Clarindo Silva, da Cantina da Lua. Acho seu Clarindo de uma simpatia ímpar, sempre trajado de branco e dono de sábias palavras. Vi também uma palestra com Amanda Soares, a “PcD Perigosa”, que abordou a produção artística de pessoas com deficiência. Pauta relevante explanada com humor e lucidez. Adorei! No sábado, foi maratona. Eliana Alves Cruz, de “Solitária”, no primeiro horário. Segui para uma mesa sobre pertencimento na língua portuguesa, com a escritora americana Jessi Fuler Fields e o escritor srilankês Indran Amirthanayagam. Fiz um lanche rápido e desci para assistir ao espetáculo “Aos pés da letra”, com Gregório Duvivier. A fila, quilométrica, batia na Baixa dos Sapateiros. Numa abordagem sagaz, Duvivier discorre sobre curiosidades linguísticas. Tem o livro homônimo. Depois, Milton Hatoum falando sobre memórias e tempo na literatura. O escritor de Manaus relatou sobre a professora de escola que guardou sua primeira redação, convicta do sucesso editorial que ele se tornaria. A pró vaticinou e acertou. Pra quem é de educação, ouvir essas histórias é um bálsamo. À noite, Astrid Fontenelle entrevistou a mineira Carla Madeira, autora de “Tudo é rio”, “A natureza da mordida” e “Véspera”. A programação seguiu intensa no domingo, mas não compareci. Fui organizar os títulos adquiridos.
Além dos livros e conversas, eventos literários possibilitam (re)encontros, despertam emoções, resgatam múltiplas memórias… Os homenageados foram Myriam Fraga, que idealizou a Flipelô, e Calasans Neto, ilustrador baiano das obras de Jorge Amado. Conheci Mestre Calá quando estudei no Colégio Nossa Senhora das Mercês. Comemoração do aniversário de Jorge Amado, excursão para Ilhéus. Na volta, fui com colegas entrevistar Calasans em Itapuã, na casa onde vivia com sua querida Auta Rosa e servia como ponto de encontro de nomes das artes. Outra memória preciosa: a LDM, livraria daqui, completa 34 anos. Tinha um espaço no Campus da Lapa. Virei cliente ali, depois a loja da Piedade. Eu reservava livros e meu falecido pai passava para pagar e pegar com Francis, atendente e jornalista, sempre atencioso com os leitores. Na Flipelô também revejo colegas de faculdade, alunos, ex-alunos, livreiros e muita gente que aprecia ler. Nesta edição tive a companhia da amiga Patrícia. Finalizamos Letras. Depois, fui cursar Comunicação; e ela, Direito. O amor pelos livros mantém nossa amizade há décadas. Confiante nas minhas indicações, ela sugere que eu crie uma página com essa finalidade. Prometi pensar…
Entre o suco de limão com côco e o sorvete da Cubana (que pra mim, não podem faltar!), consegui ver tudo o que queria e honrar as entregas de texto e de correções. Aliás, tenho um lamento… Não pude mostrar a Carla Madeira minha tattoo literária inspirada num dos seus livros. Até a vi “en passant”. O colega Roberto Aguiar, da comunicação do evento, a conduzia para o palco. Fiquei “acrílica” e não me aproximei.
Renato Noguera, Giovani Martins, Maria Ribeiro, Giovana Madalosso, Mariana Salomão Carrara, Luiz Antonio Simas, Valter Hugo Mãe, Geni Núñez, dona Conceição Evaristo e Rita von Hunty são alguns dos nomes que quero ver na edição de 2027. Espero também o acréscimo de espaços, instalação de telões. O evento só cresce e os locais disponibilizados já não comportam o público ávido por literatura. Que as autoridades da cultura possam cogitar a criação do Teatro Pelourinho.
Li que São Jerônimo é o padroeiro dos leitores assíduos; São Francisco de Sales, dos escritores e jornalistas. Não sei ao certo, ainda assim vou pedir aos dois para Carla Madeira voltar ano que vem e “ver com os próprios olhos” (Duvivier que não me ouça ou não me leia!!!) a minha tatuagem inspirada no texto de “Véspera”.
Vida longa à Flipelô!
*Iumara Rodrigues é comunicóloga, professora, revisora, roteirista e fã das palavras.
